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Presidencialismo, parlamentarismo e o caso brasileiro: o que muda na prática

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Na segunda aula de Princípios da Democracia, Rogério Schmitt conectou índices internacionais de democracia ao debate sobre governabilidade no Brasil.

Na noite de 20 de janeiro de 2026, a Oficina Municipal realizou a aula “Sistemas e regimes de governo”, com o professor Rogério Schmitt, no módulo Princípios da Democracia do programa Cidadania e Política, em parceria com a Fundação Konrad Adenauer.

Para abrir a conversa, Schmitt trouxe uma frase irônica (de autor desconhecido) que serviu como aquecimento para o tema e, de quebra, resumiu o tipo de dilema que aparece quando se compara parlamentarismo e presidencialismo: “o parlamentarismo é ótimo” porque governos ruins caem rápido, mas “se for bom, também cai rápido”; já no presidencialismo a estabilidade vem junto com o fato de que, se o presidente for ruim, “você tem que aguentar ele por 4 anos”.

Democracia é exceção no mundo, e isso muda o jeito de olhar para “modelos”

Antes de entrar nos sistemas de governo, o professor organizou o debate a partir da ideia de regimes políticos e do que a ciência política chama de democracia “realmente existente”. No material da aula, aparecem referências como Robert Dahl (poliarquia) e Arend Lijphart (modelos majoritário e consensual), reforçando que democracia envolve instituições, participação e competição efetiva pelo poder.

Na discussão sobre regimes políticos, Schmitt recorreu ao Índice de Democracia da Economist Intelligence Unit (EIU), que atribui notas de 0 a 10 a cada país a partir de cinco dimensões: processo eleitoral e pluralismo, direitos civis, funcionamento do governo, participação política e cultura política. Com base no recorte mais recente apresentado em aula (referente a 2024), o professor destacou que a democracia ainda é exceção no mapa-múndi: são 25 democracias plenas e 46 democracias falhas, enquanto 36 países entram na categoria de regimes híbridos e 60 são classificados como autoritários.

Nesse panorama, o Brasil aparece com nota 6,8 — dentro do grupo das democracias falhas —, lembrando que, como o professor observou, “a democracia é exceção” e precisa ser cultivada.

Ainda nessa primeira parte, a aula dialogou com o debate contemporâneo sobre crise democrática. O material cita Adam Przeworski ao destacar que o risco mais relevante hoje tende a ser a erosão gradual e legal das instituições, e que democracias sobrevivem quando seus atores aceitam perder eleições sem subverter as regras do jogo.

Presidencialismo, parlamentarismo e o “presidencialismo de coalizão” no Brasil

Ao passar para sistemas de governo, o professor fez questão de tirar dois mitos da mesa. O primeiro: dizer que um sistema é mais democrático que o outro. “Isso tudo é bobagem”, afirmou, lembrando que presidencialismo, parlamentarismo e semipresidencialismo podem coexistir com regimes democráticos, e que o grau de democracia depende de outros fatores.

No material, o conceito aparece de forma bem direta: sistema de governo é, essencialmente, a maneira como o Executivo se organiza e se relaciona com o Legislativo, respondendo perguntas como quem governa, por quanto tempo e sob quais controles institucionais.

A aula descreveu características do parlamentarismo (com primeiro-ministro sustentado pela confiança do parlamento e mandato mais flexível) e indicou que ele está presente em cerca de 60% dos países democráticos. Também apresentou o semipresidencialismo como modelo de “executivo dual”, citando exemplos como França e Portugal, e estimando presença em cerca de 10% das democracias.

No bloco sobre o caso brasileiro, o professor lembrou que o país já viveu versões dos três sistemas: parlamentarismo no Império, presidencialismo após a República e um breve interregno semipresidencialista em 1961–1963. E recordou duas consultas nacionais em que o presidencialismo venceu com ampla margem: 82% no referendo de 1963 e 69% no plebiscito de 1993.

O ponto mais “brasileiro-raiz” do encontro foi a explicação do presidencialismo de coalizão, expressão associada ao cientista político Sérgio Abranches. A definição citada destaca que o Executivo se organiza “com base em grandes coalizões”. Na prática, como explicou Schmitt, trata-se de um arranjo em que o presidente é eleito pelo voto, mas governar exige construir maioria no Congresso com apoio de outros partidos, muitas vezes por meio da composição de ministérios e cargos.

O professor também chamou atenção para a fragmentação partidária recente como parte do desafio de governabilidade, mencionando que, em 2023, havia 17 partidos no Congresso, e que já chegou a 30 em período anterior, o que torna a montagem de coalizões um exercício permanente.

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A aula integra o módulo Princípios da Democracia, dentro do programa Cidadania e Política, realizado pela Oficina Municipal em parceria com a Fundação Konrad Adenauer. Ao longo do calendário de 2026, a proposta é seguir oferecendo formação acessível e baseada em evidências, conectando conceitos fundamentais a desafios concretos da vida pública.

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