O que é democracia? Aula da Oficina Municipal percorre do conceito à participação cidadã
Professor Leandro Consentino revisou a evolução histórica da democracia, discutiu a crise da representação e apresentou caminhos participativos.

No dia 19 de janeiro de 2026, a Oficina Municipal deu início ao calendário de formações do ano com a aula “O que é democracia? Histórico conceitual e contexto atual”, ministrada pelo professor Leandro Consentino, em parceria com a Fundação Konrad Adenauer. A atividade abriu o módulo Princípios da Democracia, dentro do programa Cidadania e Política, com participação online de pessoas de diferentes cidades e também de outros países.
A pergunta que guiou a noite veio acompanhada de um alerta logo de saída. “Todo mundo fala sobre democracia, só que nem todo mundo que está falando sobre democracia está falando da mesma coisa”, observou o professor, ao explicar por que o tema costuma gerar mal-entendidos e por que a democracia não se resume ao ato de votar.
Para organizar o debate, o professor apresentou duas lentes complementares para entender o termo: a democracia vista pela história e pelo contexto (na linha de Giovanni Sartori) e a democracia como valor cultural do cotidiano, que envolve liberdades e direitos para além das regras eleitorais.
Da Grécia Antiga à democracia liberal
A aula percorreu a trajetória da democracia desde a experiência da Grécia Antiga, com destaque para Atenas, onde decisões eram tomadas em assembleia pública. Ao mesmo tempo, o professor chamou atenção para limites do modelo: não se tratava de um país como entendemos hoje, e mulheres e pessoas escravizadas não participavam.
Na sequência, o conteúdo avançou para a consolidação da democracia representativa, incluindo influências do Parlamento inglês e transformações institucionais entre os séculos XVII e XVIII. O ponto sublinhado foi que participação política e direitos foram ampliados de forma gradual e desigual, em processos que ajudam a explicar tensões que ainda persistem.
Já no século XX, a discussão chegou ao que se costuma chamar de democracia liberal, com critérios que incluem liberdades de organização e expressão, imprensa livre, eleições idôneas e instituições capazes de garanti-las. Em outras palavras, votar é parte do caminho, mas não dá conta de tudo sozinho.
Participação, confiança e os desafios do presente
A aula também abordou um cenário de recessão democrática, associado à dificuldade de a democracia representativa responder a demandas complexas, ao distanciamento entre representantes e representados e ao avanço de forças iliberais em diferentes países. Consentino ressaltou ainda que, nas condições atuais, a volta à democracia direta nos moldes antigos não é uma saída realista.
Nesse contexto, o professor apresentou a democracia participativa como um caminho de ampliação do envolvimento cidadão, com instrumentos como plebiscito, referendo e lei de iniciativa popular, além de práticas como orçamento participativo (com referência à experiência de 1989, em Porto Alegre), conselhos e audiências públicas.
Um trecho que marcou a discussão foi a relação entre democracia e confiança social. “Não sou eu que tô dizendo, é a pesquisa”, afirmou Leandro Consentino ao mencionar o World Values Survey (WVS), que mede confiança interpessoal a partir de uma pergunta direta: se, em geral, “a maioria das pessoas é confiável” ou se “é preciso ter muito cuidado”. No recorte citado na aula, 3% dos brasileiros responderam que confiam nas outras pessoas, enquanto países escandinavos passam de 60%. O contraste ajudou a mostrar que cooperação não nasce só de regras formais: ela depende também de vínculos sociais.
No encerramento, o professor voltou à ideia de que democracia não se sustenta apenas com informação, nem apenas com mobilização. “Só a educação sem participação não resolve nada”, disse, defendendo que a combinação entre formação e engajamento é o que fortalece a vida pública no dia a dia.
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A aula integra o módulo Princípios da Democracia, dentro do programa Cidadania e Política, realizado pela Oficina Municipal em parceria com a Fundação Konrad Adenauer. Ao longo do calendário de 2026, a proposta é seguir oferecendo formação acessível e baseada em evidências, conectando conceitos fundamentais a desafios concretos da vida pública.
