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Cultura política brasileira: aula discute “homem cordial”, socialização e os mitos que moldam nossa relação com a política

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No último encontro do curso “Política no Brasil”, Rodrigo Estramanho explicou o conceito de cultura política, diferenciou Estado e nação e analisou obras de Pedro Américo como chaves de leitura do imaginário político nacional.

Na noite de 5 de fevereiro de 2026, a Oficina Municipal realizou a quarta e última aula do módulo Política no Brasil, dentro do Programa Cidadania e Política, em parceria com a Fundação Konrad Adenauer (KAS Brasil). O tema do encontro foi cultura política brasileira, com condução do professor Rodrigo Estramanho de Almeida.

A aula teve um objetivo ambicioso e necessário em ano sem folga para o debate público: apresentar o conceito de cultura política e o processo de socialização, relacionando essas ideias às noções de Estado e nação e, ao final, convidar os participantes a refletirem sobre o Brasil a partir do tipo do “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda, e de pinturas históricas de Pedro Américo.

O que é cultura política e por que ela vai além das instituições

Estramanho definiu cultura política como um campo que envolve dimensões subjetivas: percepções, sentimentos, crenças e avaliações que as pessoas constroem sobre política — não apenas regras formais e desempenho de governos. A apresentação trabalhou com definições clássicas e destacou que cultura política ajuda a entender como uma sociedade dá ordem e significado ao processo político.

O professor também lembrou marcos teóricos usados com frequência no tema, como Alexis de Tocqueville (A democracia na América, 1835) e Almond & Verba (The Civic Culture, 1963). Ao comentar Tocqueville, destacou a importância de observar a vida real — circulação de opiniões e liberdade de imprensa — para compreender o funcionamento democrático no cotidiano.

Como a cultura política se forma: socialização e regras do jogo aprendidas no dia a dia

Um trecho central do encontro foi a explicação do processo de socialização, entendido como a forma pela qual as pessoas vão incorporando valores e referências coletivas ao longo da vida. Na aula, Estramanho descreveu a socialização primária (com destaque para família e escola) e a secundária (trabalho, instituições públicas e privadas, cotidiano e mídia).

Ao falar da escola, ele usou um exemplo simples para mostrar como cultura política aparece até na linguagem: a diferença entre tratar a escola como extensão da casa — chamando professora de tia — ou como uma instituição com regras próprias, que ensina limites, convivência e noções básicas de esfera pública.

Estado e nação: conceitos parecidos mas não iguais

A aula também diferenciou dois termos que costumam ser usados como sinônimos: Estado e nação. Para Estramanho, Estado pode ser entendido, em linha com Max Weber, como o ente que detém o monopólio legítimo da força. Já nação é mais difícil de definir: envolve pertencimento, identidade, memória coletiva e também invenção — aquilo que um grupo conta sobre seu passado e projeta para o futuro.

Ao citar Benedict Anderson, o professor trouxe a ideia de nação como uma comunidade sustentada por um destino comum, chamando atenção para como símbolos, narrativas e referências compartilhadas ajudam a manter coeso um “nós” coletivo.

“Homem cordial” e patrimonialismo: quando o público vira continuação do privado

Na segunda metade do encontro, Estramanho retomou Raízes do Brasil (1936) e o capítulo sobre o “homem cordial”, lembrando que “cordial” não significa “bonzinho”: vem de cordes, “coração”. A tese, explicou, está ligada a resolver conflitos e relações sociais mais pela ordem dos sentimentos do que por contratos e regras impessoais — um caminho que ajuda a entender o embaralhamento entre público e privado.

Nesse percurso, o professor conectou o tema ao patrimonialismo — quando práticas privadas contaminam o funcionamento institucional — e a uma cultura de atalhos e intermediações que enfraquecem a impessoalidade da burocracia.

Pedro Américo como leitura da cultura política: heróis, martírios e “revoluções pelo alto”

Para fechar, a aula propôs um exercício de leitura de imagens históricas. Em Tiradentes Esquartejado (1893), Estramanho apontou elementos que aproximam o personagem de uma iconografia cristã, reforçando a ideia de heroísmo político como martírio e a mistura entre simbologia religiosa e liderança política.

Já em Independência ou Morte (1888), a análise destacou a representação de uma revolução sem conflito armado — exemplo do que chamou de revoluções pelo alto — e como a cena produz uma narrativa de fundação nacional marcada por ordem, aclamação e protagonismo das elites.

O módulo “Política no Brasil” encerra com a proposta que atravessou as quatro aulas: compreender como história, instituições e cultura política se combinam na vida real e por que isso importa para quem atua na gestão pública e para quem quer participar do debate público com mais repertório. Para acompanhar os próximos módulos do Programa Cidadania e Política, siga a Oficina Municipal e acompanhe nossos canais.

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